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Forum do cavalo
Ary
Minha vida com os cavalos assemelha-se com a maioria das histórias de vocês : menino nascido no interior cuja infância foi vivida em liberdade , de pés descalços ,empinando pipas , comendo frutas no pé e fazendo todo tipo de " traquinagem " que enlouqueciam nossos pais.

Os cavalos chegaram em minha vida , creio , através de minha mãe. Ela conta que no exercício do magistério -- que era sua profissão -- costumava ir a escola rural, onde lecionava, a cavalo, atravessando todas as manhãs os cerca de 5 quilômetros que separavam nossa casa daquela pequenina escola no alto da serra onde trabalhava . Até hoje ela afirma -- com seus quase 80 -- que era uma excelente amazona e não vê muito " mérito " quando me gabo dizendo que sei saltar troncos e obstáculos com meus cavalos . Coisas de mãe , tem que se respeitar.

Não possuo uma imagem " visual" e real de minha mãe montada a cavalo . Fotografias também não tenho, pois eram instrumento raríssimos e caros naqueles anos 50 . Más sou levado a acreditar que de alguma forma a experiência eqüestre de minha mãe chegou a mim , quem sabe , talvez , geneticamente . Seria isso possível ?

Nossa casa foi construída praticamente na porteira de entrada de uma antiga fazenda de leite -- resultado do avanço da cidade no decurso do progresso urbano que se aproximava da zona rural . Ainda assim , nossa casa não divisava com vizinhos e os terrenos do "novo " bairro ainda estavam quase que totalmente desabitados. Me lembro que meu pai não se conformava em pagar IPTU , pois afirmativa que morávamos na "roça" e não possuíamos quase nada de benefícios urbanos como coleta de lixo , ruas calçadas e coisas assim.

Entretanto , essa ausência desses benefícios , permitiu a mim e meus irmãos, que aproveitássemos a vida rural em sua quase plenitude . O leite era fresquinho e deixado no nosso portão em pequenos latões de um litro. O pão também era deixado junto ao portão e era entregue por um senhor que , velhinho , dirigia uma bicicleta com dois cestos -- um de cada lado -- cheio de pães que iam sendo deixados nas casas do bairro e também da fazenda. Essas compras de leite e pão eram , curiosamente , anotadas numa caderneta que ficava sobre a geladeira de nossa casa , e , ao final do mês minha mãe ia a casa dos " fornecedores " para fazer o pagamento cujo único controle eram as "cadernetas" . Isso ainda existe ? Bons tempos aqueles.

Meu contato mais direto com os cavalos foi aos cinco , seis ou sete anos , algo assim . Me recordo que "pegávamos " os cavalos -- marchadores -- que pastavam próximos a nossa casa , e , com um pedaço de corda, fazíamos uma " cabeçada" que servia para dirigir e frear o animal . De quem eram os animais ? Não faço idéia , mas enquanto montados eram " nossos " veículos de transporte até um riacho onde costumávamos nadar nas tardes ensolaradas após o período escolar.

Um desse animais , um castanho marchador , acostumou-se tanto conosco que freqüentemente invadia nosso campinho de futebol e atrapalhava nossas peladas.Curioso que por mais que o tocássemos dali , lá voltava ele , minutos depois , sorrateiramente a comer a grama de nosso campo . Demos a ele o nome de " bandeirinha " , pois cismava em ficar nas laterais do campo pastando enquanto os meninos faziam gol em traves de tijolos .

O fato triste nessa história é que "bandeirinha" foi , acreditem , atropelado por uma carro -- um modelo Cônsul , Inglês -- que trafegava naquela rua , e ele teve que ser sacrificado com um tiro disparado por um policial local . Naquele dia foi uma choradeira geral da criançada . Até hoje me recordo da "baratinha branca e preta" da polícia chegando e um tal de Cabo Jorge, sacando do revolver , deu fim ao "bandeirinha" . Por anos a fio , quando víamos o tal Cabo , mudávamos de direção e cochichávamos entre nós : Lá vem Cabo Jorge -- o mata cavalo .

Enfim , daquela época para cá muita coisa mudou , mas de forma mais ou menos intensa sempre tive algum tipo de contato com os cavalos . Hoje minha curiosidade sobre estes seres aumentou muito -- porém meus conhecimentos sobre eles ainda são pequenos.

 

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