| Nutrição do Cavalo de Esporte e Trabalho
Não importa o tipo de esporte que estamos falando, seja Salto, CCE,
Enduro, Cavalgadas, Provas de Trabalho e Rédeas, quando queremos alimentar
um cavalo de esporte, nutricionalmente falando, as bases de sua dieta são as
mesmas. O que vai diferenciar é a quantidade de nutrientes, principalmente
energéticos, e a qualidade dos suplementos que devemos oferecer ao animal.
A Performance Esportiva é fruto de 03 fatores:
GENÉTICA x TREINAMENTO x ALIMENTAÇÃO
1. GENÉTICA:
Primeiramente feita pela Natureza nos milhões de anos de adaptação das
espécies até o padrão atual.
Mais recentemente, feita pelo homem para adaptar o cavalo às suas
necessidades e desejos. Como por exemplo, o cavalo quarto de Milha,
selecionado para a distância de 402 metros, imbatível nesta corrida, ou nas
provas de rédeas e trabalho; os cavalos Campolina e Mangalarga Marchador,
selecionados pela sua comodidade; os cavalos Anglo-Árabe selecionados pela
sua resistência e leveza em transpor obstáculos; etc.
Mas o trabalho da genética se encerra no momento em que uma égua emprenha de
um garanhão, iniciando-se assim, a gestação do potro.
2. TREINAMENTO:
O treinamento de cavalos para esporte é específico para cada esporte e deve
ser delegado a profissionais especializados. Alguns cuidados gerais devem
ser tomados para que se possa alcançar a melhor performance e grande
longevidade (o cavalo compete até idade mais avançada).
Antes do treinamento, a doma deve se bem feita e iniciada após os 36 meses
de idade, quando as estruturas do cavalo já estão bem consolidadas.
Após a doma, iniciar trabalhos de adestramento básico é muito importante
para que o cavalo aprenda a responder rapidamente aos comandos do cavaleiro.
Deve-se iniciar o treinamento com trabalho cerca de 03 vezes por semana,
20-30 minutos diários e ir aumentando gradativamente.
O treinamento mínimo para competição deve ser de 18-24 meses, dependendo das
condições do animal.
Este período mínimo de treinamento é devido à adaptação que as estruturas do
cavalo devem ter para suportar uma competição, e este período de adaptação
das estruturas é variável:
* Pulmão, Coração e Músculos: 2 a 3 meses.
* Tendões, Ligamentos e Articulações: 6 a 12 meses.
* Ossos: Até 03 anos.
A grande dificuldade de se aguardar o período necessário para se
iniciar a competição, é que os parâmetros utilizados para observarmos se o
animal está em bom estado atlético é a observação de batimento cardíaco,
freqüência respiratória e musculatura, que se adaptam rapidamente às
condições de competição. Enquanto que, as estruturas que sofrem alto impacto
em uma competição, tendões, ligamentos e articulações, demoram até um ano
para estarem aptas.
3. ALIMENTAÇÃO:
A alimentação do cavalo de esporte deve ser adaptada conforme as exigências.
A dieta deve ser balanceada e equilibrada, suprindo as necessidades do
cavalo sem deficiências nem excessos.
Alguns fatores individuais devem ser levados em consideração quando
da determinação das necessidades de cada animal. Mesmo através da utilização
de tabelas de necessidades específicas conforme o esforço do animal, o
oferecimento de uma suplementação concentrada deve ser feito levando-se em
consideração:
* Raça do Animal: algumas raças têm aproveitamento mais
eficiente que outras (raças pesadas possuem melhor conversão alimentar que
raças mais leves)
* Temperamento: animais com temperamento mais nervoso possuem
necessidades maiores que animais mais calmos.
* Digestibilidade Individual: variação de indivíduo para
indivíduo. (ate15% de variação)
* Clima: 10 a 20 % de variação.
* Baia ou pastagem: animais estabulados têm restrição no
fornecimento de volumoso, o que pode aumentar as necessidades de
concentrado.
* Estado Geral: muito importante ao se avaliar as necessidades
do animal em função também do peso, pois se o animal estiver muito magro
devemos superestimar suas necessidades até ele obter o peso ideal. O
contrário também ocorre, isto é, se o animal estiver acima do peso, devemos
fazer com que emagreça até o peso ideal e estimarmos novamente suas
necessidades.
As necessidades básicas são de Energia, Minerais e Proteína.
Podemos também necessitar de alguns tipos de suplementos específicos e
indicados por um profissional qualificado.
ENERGIA
As necessidades energéticas são as mais importantes, pois é a base
fundamental para uma boa performance esportiva.
Devemos fornecer uma quantidade adequada de energia, de fonte
facilmente assimilável pelo cavalo, isto é, que não gaste muita energia para
ser aproveitada (Energia Líquida Alta). A quantidade de energia líquida a
ser fornecida é variável, dependendo principalmente da quantidade do esforço
a que o cavalo é submetido (horas/dia). Em animais de esforço intenso, as
necessidades energéticas dobram em relação à manutenção. (7,5 a 8 UFC/dia
para um cavalo de 450 kg em esforço intenso e 4 a 4,5 UFC/dia para
manutenção).
Devemos tomar cuidado com o aporte vitamínico suficiente para
absorção dos ácidos graxos (energia) contidos na alimentação.
Nas transições alimentares, devemos evitar o aumento excessivo de energia
através de gordura na ração nas três semanas que antecedem uma competição,
pois é necessário um período mínimo de trinta dias para que o animal esteja
adaptado ao novo alimento.
Rações muito ricas em energia, como com cereais com 60-70% de amido
acarretam enormes problemas. O intestino delgado não pode digerir todo o
amido contido nos cereais, é o intestino grosso que recupera o excesso com
as seguintes complicações:
* Fermentações Microbianas
* Timpanismo / Formação de Gases
* Diarréia / Queda do Tônus Digestivo
* Dilatação do Ceco – Cólicas
* Degeneração Cardíaca, Hepática e Renal
* Dismicrobismo - Laminite
Além disso, o excesso de ácidos graxos essenciais (energia) na
alimentação impede a absorção normal de Magnésio, mineral responsável pelo
relaxamento da musculatura. Portanto, em dietas muito energéticas para
animais que não necessitem de tanta energia, haverá indisponibilidade de
Magnésio, dificultando o relaxamento da musculatura deste animal. O animal
"trava" a musculatura. Outros efeitos desfavoráveis dos excessos de energia
são descritos na Tabela anexa.
Devemos tomar certos cuidados no fornecimento de energia ao animal
para que esta não esteja em excesso, pois pode prejudicar o desempenho do
animal.
MINERAIS
Os minerais necessários em quantidade mais elevada e que devem ser
suplementados na alimentação são os eletrólitos (Cloro, Sódio, Potássio,
Cálcio e Magnésio).
Esta suplementação depende da intensidade do esforço e varia de
animal para animal.
PROTEÍNA
Em primeiro lugar devemos ressaltar que o trabalho muscular não é
condicionado ao consumo de proteína, mas de energia.
Estamos falando de animais de esporte, portanto animais adultos, já formados
e não em reprodução. Portanto sua dieta deve ter um limite de proteína para
que não haja queda na Performance Esportiva.
As necessidades protéicas dos cavalos de esporte são pequenas (500 a 700
g/dia de Proteína Líquida) quando comparadas às necessidades de éguas em
reprodução, que podem chegar a 1200 a 1400 g/dia.
Lembre-se que os excessos de proteína podem comprometer a boa
performance do animal (quadro anexo).
Muita atenção deve ser dada à escolha do alimento, devendo-se evitar
confundir qualidade de proteína com excesso. Devemos ainda evitar as
matérias primas ricas em proteína, como soja e alfafa.
Uma complementação concentrada ideal não deve jamais ultrapassar os
12% de proteína bruta (10% de proteína líquida), e a dieta total diária não
deve ultrapassar os 12% de Proteína Líquida.
Em todos estes casos, devemos valorizar o fornecimento de alimentos
de alta qualidade, onde possamos administrar uma menor quantidade de
alimento para suprir as necessidades do animal.
EXCESSOS DE PROTEÍNA na dieta causam Aumento da Flora Patogênica no
Intestino Grosso, com conseqüente:
o Enterotoxemia
o Problemas Hepáticos
o Emagrecimento
o Problemas Renais
o Má Recuperação após o Esforço
o Transpiração Excessiva (perdas excessivas de
Eletrólitos)
o Cólicas e Timpanismo
o Dismicrobismo, podendo levar a quadros de
Laminite
A grande dificuldade de se avaliar realmente os malefícios dos
excessos (energéticos, protéico ou mineral) é que isto não ocorre da noite
para o dia, mas demora certo tempo (6 até 18 meses), o que dificulta o
correto diagnóstico de erro no manejo alimentar.
André Galvão Cintra
Consultoria & Planejamento
Médico Veterinário
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