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Desvendando o Enigma do Centauro
Desvendando O Enigma do Centauro - Parte II
 
LEVANTANDO O VÉU

Dias existem nos quais acordo sem nenhuma vontade de montar a cavalo.

Parece que tudo é mais urgente e que melhor seria não ir e tratar de outra prioridade. Então começo a cumprir minha rotina do amanhecer muito lentamente, como a esperar para decidir se monto ou não monto neste dia.

Corto a cenoura sem muita convicção e vou pensando, totalmente indeciso, até o momento em que calço as botas, lentamente. A ver-me calçado nas botas então meu interior se revoluciona e passo da indecisão para a urgência. Quero estar logo a cavalo, como se fosse um menino que iria montar pelas primeiras vezes.

Não quero interpretações: quando se fala se começa a errar. A coisa é, simplesmente é. Já me acostumei com isso e nem quero saber o porquê.

Cumpro um programa por mim mesmo estabelecido, a fim de me gratificar com pequenos avanços diários, sobre um cavalo dócil, novo, que muito aprecio. Este, quando um pouco mais novo, ainda fazia algumas encartadas súbitas, tipo disparar dois galões à frente, ao galope, acompanhado de duas ou três garupadas. Nitidamente de boa índole, atribuo a esses corcovos não serem muito violentos o fato de nunca ter me derrubado. Essa fase passou. Hoje trabalha muito sério e é um cavalo muito fino.

Quando me chegou, dado como amansado, tinha pavor da mão.Tal fato não era devido a ter sido submetido a uma prévia iniciação de maneira errada. O pessoal, disso encarregado, trabalha bem. Mas o cavalo era fino demais para a sensibilidade normal deste competente pessoal. De uma fineza rara, a melhor mão de lá ainda era pesada para ele.

Quando me foi entregue, o responsável me veio com o seu histórico de potro, anotações, recomendações sobre o uso do bridão grosso, bridão de borracha, etc. Tão logo o montei e toquei na rédea percebi todo o quadro. Após uma volta ao passo no picadeiro, o cavalo me falou mais dele do que qualquer relatório do encarregado.

Cabeça em pé ...cabeça em pé.

Ali mesmo troquei o bridão pelo mais fino que tenho, de três pedaços( o qual nas mãos do cavaleiro mediano seria o mais violento ).

O encarregado não falou mais nada: embora não conseguisse antever o que se passaria com a utilização de um bridão(segundo seu entendimento) totalmente desrecomendado para o caso, compreendeu que o cavalo saíra da mão do iniciador e entrava na mão do ecuyer . Portanto haveriam algumas coisas muito estranhas mesmo e certas coisas que eram passariam a não ser, bem como o proibido seria oficializado ... e resignou-se.

Explico melhor o bridão grosso e o seu conceito - Por que o recomendam para o cavalo novo? Por que é tido como uma embocadura mais suave e na qual o cavalo deveria encontrar mais conforto e estímulo para encostar na mão ?

E porque nada disso, secularmente transmitido, é verdadeiro...
(a não ser muito relativamente)

Imagine que você tem uma barbearia, na qual trabalham alguns barbeiros com diferentes níveis de experiência. Imagine que nesta barbearia entram clientes com as mais variadas sensibilidades na pele e na espessura das barbas a serem feitas. Finalmente imagine que você não quer perder nenhum cliente.

Então você determina aos seus barbeiros (por saberem que eles não tem a mão tão firme como a sua ) : barbeador elétrico.

"Aqui só se usa barbeador elétrico. É a segurança do cliente e a garantia do seu retorno" e você supervisiona os empregados a barbearem a clientela.

Ocorre, entretanto que, já na hora de fechar a barbearia, estando apenas você presente, entra um cliente. Só resta você para barbeá-lo; você, mestre em barbearia - o navalha de ouro. Então você pega a navalha do jeito que aprendeu com os antigos e barbeia rápida, suave e magistralmente o cliente.

Diz ele: que barba suave, nem senti a navalha encostar na minha pele. E como está liso, sem nenhum corte...

Mas um funcionário retardatário que ainda trocava a roupa, assistiu a cena e julgou-a uma contradição com o ensinamento anteriormente ministrado...

Se ainda não fui entendido, procurarei ser mais explícito: a recomendação geral para uso do bridão grosso (como mais suave) não se referencia no bridão em si. Na verdade é para preservar o cavalo da mão do cavaleiro. Quando existe uma mão capaz de sentir, pelas rédeas, tudo aquilo que a boca do cavalo está fazendo o cérebro do animal experimentar, não há mais finalidade de bridão grosso nem para o potro mais novo. "'quanto mais de ferro na boca, menos de arte "

Os erros da mão e a natural insensibilidade daqueles que ainda puxam rédeas, provocariam catástrofes sob o uso de um bridão fino. Mas quando existe uma mão segurando as rédeas que sabe, por punho e sensação, reunir e alongar um cavalo...o uso do bridão grosso é apenas mais ferro desnecessário.

O cavalo novo debruça. O cavalo sem adestramento também. Não quer parar.Não sabe parar, então o cavaleiro puxa, saca, arranca. Então melhor que seja um bridão grosso que fará menos mal.

Portanto a secular recomendação do bridão grosso, perpassado por gerações, não está vinculada a uma mágica propriedade mecânica daquela embocadura.

O jovem instrutor, ufano do seu saber, explica aos demais as grandes vantagens do bridão grosso ...quando na verdade, para o cavalo que encontrou seu mestre, só haveriam desvantagens no uso de um bridão destes.

Mas que ninguém se arvore nesta tentativa sem plena certeza de estar habilitado. Para alguns será uma virtude inata. Para outros, o resultado de anos e anos de sela, sob uma postura monástica na busca da arte e dos seu mistérios.

Melhor deixar que se pense conforme tem sido pensado, penso eu agora, depois disso escrito. Não sei se fiz bem ou se fiz mal.

De qualquer forma, justiça será feita: aos pretensiosos que arvorarem-se a uma sensibilidade que não possuem, por falta de modéstia, o castigo virá a cavalo .Para aqueles que podiam e não sabiam que podiam, a luz terá chegado.

Mas voltemos ao caso do cavalo em questão...

Em três dias estava com o focinho no chão e até hoje nunca mais levantou a cabeça a não ser quando solicito. Depois vim trazendo, enrolando o carretel um pouco e desenrolando em seguida. Está com um pescoço lindo atualmente e trabalha em grande equilíbrio, relativamente ao tempo de trabalho que tem.

Não tem focinheira, gamarra, nada. Só uma faceira muito fina da cabeçada e o bridão na boca . Só não fechei o ramener porque não é hora, mas já tenho a certeza antecipada desta obtenção pelas prévias que fiz. É um cavalo certo para quem começa a envelhecer e tem muita coisa a ensinar a um cavalo que consinta em aprender com calma.

Quando estive em Desempenho escutei um instrutor transmitindo a um iniciante a mais bela figura de comparação, com respeito à sacralidade deste contato (com a boca do cavalo). Dizia ele qualquer coisa mais ou menos assim:" pegue as rédeas como se estivesse pegando um passarinho. Se as mãos estiverem muito frouxas, o passarinho vai fugir; se estiverem muito apertadas o passarinho vai morrer "... Foi o conceito inicial mais belo que já ouvi.

Afirmo que, mais tarde, pode ser possível abrir e fechar as asas do pássaro, esticar e encolher suas pernas e abrir e fechar seu bico sem que ele em nada seja constrangido nem queira fugir. Quando for possível fazer isso o cavaleiro irá entender o que aqui pretendi transmitir.

Para o cavalo, melhor do que o bridão fino, só mesmo sem nada na boca .

Humildade ao interpretar esta mensagem.

Cavalier

 

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