HOME Escola de Equitação Instituto Homo-Caballus Coudelaria Fórum
Desempenho
Desempenho Calendário | Como Chegar | Fale Conosco | Cadastro | Fotos
Desempenho
Desvendando o Enigma do Centauro
Desvendando O Enigma do Centauro - Parte II
 
GODOLPHINA

Quando a Godolphina chegou na nossa morada, trazida na carroceria de um caminhão, estava tão machucada e fraca que quase não conseguia ficar de pé. Muito magra, com mais de vinte anos de idade, a pobre égua castanho-escura fora torturada por monstros fantasiados de seres humanos, foragidos dos quintos dos infernos: cortaram a sua cara, deixando o osso “relampiando”. Os talhos no pescoço e na perna direita quase a levaram à morte por hemorragia. Sofrera tanta bordoada, a pobre da égua, tanta bordoada que o inchume escondia os seus olhos, raiados de vermelho. Também derramaram óleo queimado no lombo e, como se não bastasse, com requintes crueldade introduziram um galho, seco, de árvore, na sua vagina. Perdeu muito sangue, a coitada! Ódio assim só existe em peitos de demônios. Animais não chegam a tanto.

Na cocheira, cada vez que uma pessoa se aproximava, a égua ficava quase louca. “Vai começar tudo de novo!” – deveria pensar, apavorada, cabeça levantada, olhos esbugalhados, rolando nas órbitas inchadas. Para aplicar o curativo nos cortes não pôde ser com “sprays”: o ruído assustava-a mais ainda. Com uma esponja atada na ponta de um sarrafo e muita paciência, conseguimos aplicar os antisséticos até ficar curada.

Poucas semanas depois, com antibióticos, antiinflamatórios, muita paciência, carinho e boa comida, enquanto comia milho quebrado aceitava afagos no pescoço. Depois de pouco mais de sessenta dias estava tão mansa e sã que até os meus netos andavam nela. Quanta nobreza há num cavalo! Basta um pouquinho de carinho para esquecer agressões horripilantes, que transformariam um homem num monstro sedento de vingança. Saber perdoar é a maior qualidade dos animais. Porém, esquecer tormentos sofridos, isso é muito mais difícil! Porque “angustias y tormentos / son marcas que han de durar...” – observou Yupanki.

– Por que o nome de Godolphina? – perguntou “Má”, certo dia.

Expliquei-lhe que era uma homenagem ao Godolphin Arabian, um dos pilares da raça PSI (Puro Sangue Inglês). Trata-se de um cavalo nascido na Barbária em 1712, que passou da opulência das cavalariças reais à miséria de puxar carroças até, enfim, assumir o seu papel de padreador, fundador de uma raça.

“[...] Foi doado pelo Bey da Tunísia a Luís XIV, juntamente com outros animais selecionados da raça bérbere. Reformado da cavalaria real, Godolphin foi tracionar uma carroça, transportando areia ou água nas ruas de Paris (não existe misericórdio no peito dos poderosos). Mais tarde, foi comprado pelo inglês Cook (o bom garimpeiro sabe distinguir o cascalho do diamante), que o levou para a coudelaria de Lord Godolphin com o objetivo de empregá-lo como rufião, para estimular o cio das éguas. Entretanto, certo dia, após a morte do garanhão do haras (segundo alguns hipólogos, morto por ele em luta), não havendo outro reprodutor, Godolphin Arabian foi posto a cobrir a égua Roxane. Deste acasalamento nasceu Lath, notabilíssimo pela excelente conformação, dando início a uma extensa série de craques.”I

Assim como o grande Godolphin, a Godolphina, com estampa de puro-sangue inglês, também puxa carroças. Esse trabalho tão vil não impediu, ao famoso garanhão, carregar nos seus genes o cariótipo e o fenótipo dos melhores cavalos de corrida do mundo. Da Godolphina não se espera tanto: apenas que transmita a sua infinita capacidade de perdoar – que me perdoem se cometo um sacrilégio – como Cristo na cruz perdoando os seus algozes: “Perdoai-os, Pai, porque não sabem o que fazem”. Na minha religião particular, os animais também são filhos de Deus e não escravos dos homens.

A bondade de coração não é apanágio do homem. Um dos mais tenebrosos sentimentos que moram em peitos humanos é o rancor, que é o ódio potencializado, destrutivo. O que é perdoar se não saber esquecer o que magoou? Sepan que olvidar lo malo también és tener memoria – garante José Hernández. E que eu, modestamente modifico: “Saibam que esquecer o mal que nos fizeram, também é ter misericórdia”. A isso se chama perdoar.

I FESTUGATO, Eduardo. Cavalo para mim é um trono!

 

home  |  topo  |  versão para impressão  |  voltar

Desempenho - Telefax: (21) 2745-6178 Cachoeiras de Macacu, RJ