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Desvendando o Enigma do Centauro
Desvendando O Enigma do Centauro - Parte II
 
Meus primeiros contatos com o cavalo.

Nascido em Caxias do Sul a 12-10-38, Eduardo Festugato hoje tem 64 anos “bem vividos”, como gosta de frisar. Formado em medicina há quase quatro décadas, fez Clínica e Cirurgia Geral durante sete anos (1965 a 1972), na cidade de Torres, interior do Rio Grande do Sul. Foi lá onde ele se inspirou para escrever as crônicas sobre a medicina de antigamente, com todas as suas angústias, sofrimentos e também com suas alegrias, que estão no livro RECORRIDA. Há 25 anos, faz Ginecologia e Obstetrícia, em Caxias do Sul.

Primeiro contato com o cavalo

“O meu primeiro contato com o cavalo foi na infância, quando morávamos com meus avós maternos. Passado mais de meio século ainda lembro o “nonno” Fonte (apelido de Senofonte Parmeggiani), suando dian-te da forja, torso nu e cabeludo apenas protegido por um avental de couro, batendo no ferro incandescente, fazendo saltar fagulhas por todos os lados – era ferreiro. O “tuin tuin” do martelo batendo no ferro ainda soa, saudoso, aos meus ouvidos. (Talves seja por isso que eu tanto gosto do canto do sabiá-ferreiro).

O compadre do meu avô, Aparício Postali, dentista, gostava de brincar com ele declamando: “Fonte, c’o le braghe onte, / c’ol capel de paia, / Fonte canaia”. Só depois de mais de quarenta anos vim descodrir que era uma paródia de um poema italiano no qual “Fonte” substituía a palavra “conte” (conde), no original: “Conde, com as calças engraxadas, / com o chapéu de palha, / conde canalha”.

O “nonno” Fonte tinha paixão: cavalos. Com excessão do seu compadre Postali, ninguém tinha melhores cavalos do que ele, em toda a região. Na época da revolução de 1923, teve de esconder o seu plantel no interior da Terceira Légua de Caxias do Sul, para não serem “requisitados” pelos “margatos” borgistas.

A ferraria do “nonno” Fonte, rodeada de verde, estava localizada na Vila Pistola, hoje Bairro Rio Branco, um dos mais populosos da cidade. Nos fundos havia o grande galpão, de madeira, onde eram estabulados cavalos, vacas, mulas, tendo o depósito do feno na parte de cima. “Boneca” era no nome da mula. Devia ter mais de trinta anos quando a conheci, pois carregou várias vezes a minha mãe, solteira, quando ia ao moinho do tio Lucieto levar o trigo a ser moído, fabricando a farinha com que se faria o pão e as gloriosas macarronadas que ainda perfumam minhas lembranças afetivas, tão longínquas. Lembro a labuta do pessoal estocando o feno para o inverno, depois do pasto secado ao sol, usando forcados como os que aparecem nas telas de Michelangelo, nas mãos de diabos com asas de morcego. Quando o paiol estava lotado faziam grandes medas que ficavam como manchas amarelas destacadas, aqui e ali, no verdor escuro da paisagem.

Desmentindo as palavras do Herman Hesse afirmando que “Uma árvore não morre... / Espera”, já não tem mais árvores. Araucárias, ipês, angicos, canelas, canjeranas não esperaram: deram lugar para moradias, edifícios, fábricas e asfalto. O enorme mato dos Feijó, ao lado da casa do vô, foi todo derrubado e no seu lugar brotaram centenas de casas man-chando a paisagem como uma doença de pele. Até a ferraria, rodeada de pés de figos “c’o la gossa” (com a gota) e caquis de manteiga e chocolate, foi engolida pelo “progresso” sempre faminto de vidas qual insaciável Moloc consumindo criancinhas. No lugar das árvores nasceu um grande prédio de apartamentos, um orgulho para os engenheiros como troféu de caçador: um couro de onça estendido na parede, uma cabeça de cervo, empalhada; uma mão de gorila servindo de cinzeiro . Não são troféus de vida como o pintinho recém descascado, ou como o potro equilibrando-se sobre as longas patas ensaiando os primeiros passos que um dia o farão voar, mas tristes troféus de morte de um Vesúvio enfurecido sepultando Pompéias e Herculanos, cobrindo o coração com as cinzas, tristes, do luto.

Cavalos? Não existem mais. Sumiram na neblina do tempo que não volta. Onde estará a “Boneca”, o “Capitano”, a “Contadina”? E aqueles amigos que enchiam de alegria, com seus relinchos, as felizes manhãs da minha infância? E a vaca Estrela? Que fim levou a Estrela? Era tão mansa que meu avô me colocava no seu lombo quando à tardinha ia buscá-la para ser estabulada. Da vaca Estrela não sobraram nem os ossos!

Provando que a vida se repete, hoje meus netos conhecem o cavalo graças a mim. Servirá para municiá-los com valiosas lembranças da infância, que tornarão menos pesada a solidão das suas velhices. Esta será a minha herança: a boa recordação.

Adulto feliz é aquele que teve uma boa infância.”

Compre os Livros do Eduardo Festugato:

e

Crônicas:
- O Coice
- “Má” e seu pala velho
- “Má” e o martelo
- Motivos para Viver
- Maurício Babilônia
- A Égua do "Má"
- A Vingança do "Má"
- O douradilho fugiu
- ALMIRANTE
- DESENCONTRO
- AÇÃO DA MÚSICA SOBRE OS CAVALOS
- Recorrida
- Aprendendo com os erros I
- Aprendendo com os erros II - O Trauma
- Aprendendo com os erros III - Análises Interpretativas
- Aprendendo com os erros IV - Epílogo
- O trabalho de doma e adestramento, racionais, é anterior ao tradicional?
- A visita do "Marzinho"
- GODOLPHINA

 

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