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Desvendando o Enigma do Centauro
Desvendando O Enigma do Centauro - Parte II
 
CAVALOS VIVEM SOLTOS

Quem não deseja um cavalo mais amigo, mais saudável, mais competitivo? A solução é simples, ainda que sua implantação possa ser complexa – como sempre acontece nas mudanças de paradigma.

Autora: Claudia Leschonski

“Cavalos vieram ao mundo para serem soltos e devem ser soltos todos os dias.”

(Aluísio Marins)

A espécie eqüina conta com sessenta milhões de anos de evolução. Há coisa de um milhão de anos, o gênero Equus desmembrou-se em seus atuais componentes – cavalos, asnos, e diversas espécies de zebras. A domesticação dos cavalos pelo homem aconteceu há uns seis mil anos. Isto significa que do prazo total de existência dos cavalos, apenas 0,01% do tempo foi passado como “servo e companheiro” do ser humano, ou ainda, que para cada ano de domesticação, a espécie eqüina tem um século de vida livre e selvagem a contabilizar.

Cavalos: domesticação recente

Em termos genéticos, isto significa que a seleção natural, tal como imposta pelas características do habitat natural dos cavalos, tem peso e significado muito maiores que toda a seleção artificial que veio depois pela interferência humana, aí incluindo a formação das diversas raças e tipos raciais de cavalos, criados por nós em função tanto de conceitos abstratos (beleza, gosto, representação social...) quanto de necessidades concretas (força, velocidade, rusticidade...). Além disto, a biologia evolutiva nos ensina que o maior motivador de todas as criaturas é o seu instinto de sobrevivência – o desejo, tornado necessidade imperativa, de fazer tudo para continuar vivo da maneira melhor e mais saudável possível, pelo maior período de tempo possível. Todos os seres vivos que hoje existem, inclusive você, eu, e todos os nossos cavalos, vêm de uma longa cadeia de ancestrais que possuíam aguçadíssimos e eficientes instintos de sobrevivência. Se assim não fosse, nenhum de nós estaria aqui: nossos ancestrais não teriam conseguido deixar descendentes. E para um cavalo selvagem, o grande herbívoro nômade das estepes, quais eram os comportamentos que otimizavam a possibilidade de sobrevivência? Eles podem ser resumidos numa única frase:

Andar e pastar na companhia de outros cavalos.

Por quê? Antes da domesticação, os cavalos já eram animais de grande porte – nem sempre tanto quanto as atuais raças domésticas, mas grandes o bastante para precisarem de grande quantidade diária de nutrientes. Eles evoluíram tendo por alimento principal as gramíneas de estepes, savanas e pradarias, disponíveis em grande quantidade, porém espalhadas ao longo de grandes territórios. Isto significa que os cavalos precisavam pastar durante o dia todo, e também estar em permanente deslocamento em busca de seu alimento – do contrário, não conseguiriam ingerir todos os nutrientes de que precisariam para sobreviver. E sem disporem nem de chifres para defesa e ataque, sua maior arma de sobrevivência passou a ser a velocidade e a rapidez de reflexos. Além disso, o grupo representava segurança vital para os seus integrantes, já que herbívoros isolados dos seus sempre são os alvos favoritos dos predadores em busca de caça.

O que um cavalo deseja?

É fácil entender que, ao longo de sessenta milhões de anos:
• Cavalos sem condições ou sem vontade de andarem e pastarem durante até vinte horas diárias morriam cedo, e sem deixar descendentes.
• Cavalos “individualistas” que não apresentassem um comportamento gregário (ou seja, a preferência pela vida em grupo) acentuado eram alvo mais fácil de predadores, e deixavam menos descendentes, até que a característica de “gosto pela solidão” se extinguisse da população.
• Cavalos lentos, que não fossem desconfiados e que não fugissem a toda a velocidade ante o menor sinal real ou imaginário de perigo morriam jovens...
• ... e assim por diante.

E de repente chegou o ser humano literalmente colocando o mundo dos cavalos de pernas para o ar. Inventamos de colocar nossos cavalos em confinamento solitário e alimentando-se com pequenas refeições de alimento concentrado, exatamente como se fossem eles, e não nós, os descendentes de trogloditas (= habitantes das cavernas). E desde então veterinários e profissionais do cavalo em geral ouvimos perguntas do tipo:
• O que faço para meu cavalo parar de comer esterco?
• Como curar a aerofagia?
• Meu cavalo é muito nervoso, e eu queria um freio para fazê-lo obedecer melhor!
• Tenho um cavalo que morde e escoiceia, tanto pessoas quanto outros cavalos. Que remédio posso dar para acalmá-lo?

É sintomático da nossa época acelerada, movida a estimulantes de manhã e tranqüilizantes à noite, que as pessoas em geral procurem soluções rápidas e simples para estes problemas de seus cavalos, sejam vitaminas, “injeções” em geral ou embocaduras mais severas. Mas em primeiro lugar elas precisam dar-se conta de que muitos distúrbios dos cavalos – físicos, psicológicos ou uma combinação de ambos – são a resposta eqüina às três necessidades básicas e inter-relacionadas:
• Preciso comer
• Preciso andar
• Preciso ficar com outros cavalos

O cavalo que pratica a dança do urso, por exemplo, “faz de conta que está andando”; a aerofagia e vários tipos de apetite depravado, tais como a coprofagia, são a tentativa de passar mais tempo ingerindo alimento, especialmente fibras; e a agressividade e distúrbios de comportamento em geral costumam resultar da falta de convivência social com outros cavalos. Tal como um prisioneiro que tenha por muito tempo ficado encarcerado na solitária, nossos cavalos se tornam psicopatas, às vezes de forma irreversível, pela privação do contato com seus semelhantes.

Como resgatar a motivação eqüina?

Está claro que um animal destes, desequilibrado, enfraquecido e infeliz, não chegará nem perto de patamares ideais de desempenho – seja no trabalho, no lazer ou na competição. Para que um cavalo apresente rendimento na hora diária de trabalho que dele solicitamos, é necessário que as vinte e três horas restantes de seu dia tenham pelo menos alguma semelhança daquilo que ele, acredito, escolheria fazer se não existisse em nossa função e para nos servir.

E o que ele faria? Provavelmente... andar e pastar na companhia de outros cavalos.

E antes que alguém me escreva dizendo que “é impossível proporcionar liberdade plena ao meu cavalo”, permitam-me observar que existe o ideal e o possível. O ideal é utópico, inatingível por definição. Mas o possível depende de cada um de nós, dos compromissos entre nossas expectativas e as necessidades intrínsecas de nossos cavalos que estejamos dispostos a fazer. Só que às vezes acabamos usando o fato de que o ideal é impossível como desculpa para não fazermos nem o que seria possível. No caso, fazer um piquetinho para soltar os cavalos nem que seja algumas horas por dia, oferecer-lhes mais volumoso (feno, levar para pastar, capim cortado) enfim, permitir-lhes que sejam, mais que nossos corcéis mágicos, belos e poderosos... apenas cavalos.

-Claudia Leschonski é médica veterinária e presta consultoria a estabelecimentos eqüestres. Propõe a implantação de técnicas de manejo e treinamento que respeitem a natureza dos cavalos tanto para otimizar os resultados quanto para tornar a convivência entre pessoas e animais mais prazerosa. Escreva para belerofonte2@terra.com.br .

 

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