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O Caso “Jaboré” – um cavalo forense – parte I
Esse “Pérolas” é um pouco diferente. Não tem um texto poético inesquecível, ou um texto surpreendente como o das “Bitolas”. Não chega a ser um tratado, ou quase, sobre um aspecto ou outro da equitação. Mas eu acho, particularmente, que o que virá a seguir é uma das mais importantes contribuições do Fórum Desempenho, quando vamos ver uma pessoa distanciada centenas de quilômetros de outras, com um cavalo em mãos e alguns problemas a serem resolvidos. Ou, se não problemas, pelo menos algumas dúvidas e questões cujas respostas eram importantes. Outra coisa: prepare a cadeira, pegue uma água, uns biscoitos, alguma coisa assim. Pode ser um 12 years on the rocks, também. Porque essa “pérola” vai longe. :o)
Vamos ao Caso “Jaboré”, um marchador comprado de sobreano pelo Renato, em Santa Catarina. Tudo começou em 2 de abril de 2002, na msg 3315.
“Assunto: POSTERIORES QUE ALCANÇAM
Prezados Companheiros,
Tem ocorrido que um potro MM (3,5 anos) tem tocado/alcançado com muita freqüência os cascos traseiros nos dianteiros. Isto ocorre geralmente quando o terreno é mais pesado (redondel com areia).
Seu andamento é a marcha batida. Um dos fatores que podem estar ocasionando isto é a falta de condicionamento físico, pois não tenho conseguido montá-lo mais que três vezes por semana.
Mas será que há como conduzí-lo de uma forma mais inteligente para evitar este choque ???
Sds Eqüestres,
Renato”
Não demorou e começaram as respostas que o Renato procurava. E muito mais. O primeiro foi o Ary, na mensagem 3320, imediatamente seguido pela Milla, na 3321 e o Iaki na 3323. Respostas instantâneas, como se pode ver, dando ao Fórum o direito legítimo a um prêmio de Total Quality.
“Olá Renato e todos ,
Esta sua mensagem proporciona uma abordagem bastante interessante sobre um assunto que ha muito tenho refletido : a "sobrepassada" é ou não desejável ?
Porém, antes de mais nada, creio que este seu problema tenha mais relação com o andamento desequilibrado do que com o condicionamento físico de seu cavalo ; embora essas duas coisas não sejam excludentes. (equilíbrio depende de condicionamento físico também)
Creio nisso por se tratar de um MM de 3,5 anos estando num estágio inicial de equitação , onde o assento do cavaleiro e a embocadura ainda não estejam 100% aceitos pelo cavalo. Como conseqüência, a dinâmica de locomoção ainda está comprometida.
Meu cavalo se tocava nos boletos (aos 4 anos) por puro desequilíbrio enquanto montado. Seus movimentos eram atrapalhados e sem ritmo.
Tudo mudou quando gradativamente fomos trabalhando minha equitação e a equitação do cavalo . Esta deficiência deixou de ser um problema quando ambos passamos a buscar uma equitação mais harmônica e conseqüentemente mais técnica também . Eu , procurando interferir menos, e mais adequadamente, em seus movimentos , e ele aceitando mais meu assento e a embocadura ; O resultado foi a produção de movimentos mais bem executados e equilibrados também, sem o tocar desagradável dos boletos.
Assim , trabalhar a equitação do conjunto parece ser um bom caminho para a solução do problema . Não sei se é o caso , mas observo nos cavaleiros de marchadores , uma preocupação excessiva em marchar "rápido" , comprometendo o equilíbrio do movimento . Buscar uma movimentação ritmada, em velocidades menores, poderá ajudar o andamento sem o tocar dos pés e mãos.
(o uso de "protetor" , caneleira etc.. , pode minimizar os choques dos membros até que o equilíbrio do movimento se re-estabeleça)
Renato, vamos ouvir mais opiniões sobre este seu problema.
Pessoal , tenho pensado na "sobrepassada" como alguma coisa desejável ao treinamento de cavalos. E vocês ? Algumas pessoas dizem que a sobrepassada pode levar o movimento para os anteriores (coisa indesejável). Isto faz sentido ? Alô pessoal do adestramento , em que situação isto ocorreria? Alguém ajuda...
Abraço,
Ary”
”Oi Renato,
além do que o Ary colocou, também gostaria de dar uma opinião.
Esse problema também pode ser causado por um mal ferrageamento, fazendo
com que a passada normal seja alterada e leve seu animal a se "alcançar",
não sei se esse é o seu caso. O que recomendo é que você procure uma pessoa
especializada neste assunto ou um veterinário, para que ele veja se seu
caso pode ser corrigido por um ferrageamento corretivo.
um abraço,
Milla”
“Devemos analisar as passagens de ultrapassada e ultrapegada, que podem
ocasionar este fenômeno. O fator pinças no casqueamento também pode
influir.
Os termos populares usados com maior freqüência neste caso são "castanholar"
ou "bater a castanhola", pois na hora em que os cascos se encontram, eles
produzem um ruído muito semelhante ao da castanhola.
UGA,
IAKI”
Depois dessa rápida seqüência de mensagens, o Renato, na msg 3324, voltava à cena.
“Olá Milla e Ary,
Obrigado aos dois.
Milla: sobre o ferrageamento, acredito não seja o caso. Tenho contratado o
trabalho do mesmo profissional nos últimos dois anos e ele é bem caprichoso
(fez inclusive vários cursos de especialização em São Paulo). Os demais
cavalos não têm apresentado qualquer problema desta ordem. De qualquer forma
vou averiguar a fundo.
Ary: creio que você chegou mais perto quando falou das interferências em
demasia, quando deveríamos dar mais tempo ao potro para gradativamente
melhorar o equilíbrio e conseqüentemente o andamento. No meu caso, não
exatamente pedindo velocidade, mas pedindo engajamento dos posteriores. Vou
seguir seus conselhos ! O potro foi iniciado "de cima" em 06/11/2001.
Abraços,
Renato”
Seguida por um complemento na msg 3326.
“Olá Ary e demais,
Sobre seu último parágrafo:
Pessoal , tenho pensado na "sobrepassada" como alguma coisa desejável ao treinamento de cavalos. E vocês ? Algumas pessoas dizem que a sobrepassada pode levar o movimento para os anteriores (coisa indesejável). Isto faz sentido ? Alô pessoal do adestramento , em que situação isto ocorreria ? Alguém ajuda...
Não saberia, nem poderia falar cientificamente sobre a "sobrepassada", mas na prática, tenho observado que os cavalos que tem um bom sobre-passo são mais agradáveis. Conseguem maior amplitude, rendimento e ainda são mais macios. Sobre "levar os movimentos para os anteriores", não consigo ver sentido. Acho que os movimento podem ir para frente por outras razões.
Com a palavra ...
Sds,
Renato”
Alguns dias depois, o Renato voltava a falar do Jaboré, na msg 3360.
“Bom dia Eduardo e demais,
Obrigado ! O Jaboré é um potro que surpreende pela capacidade de
concentração. Desde que tenho ele de sobre-ano, pude observar que ele tem um
bom ouvido. Consigo com relativa facilidade, conduzí-lo com comandos de voz,
pernas e leves sinais de rédea contrária. Também aceitou muito bem o bocal e
depois o freio (médio) - não uso o bridão como a equitação clássica sugere.
Entretanto, também é característica dele um temperamento morno (linfático),
tornando-o lento para alguns esportes radicais. Em detrimento disto, tenho
direcionado o trabalho para cavalgadas por trilhas, onde ele tem sido um
excelente parceiro, corajoso e calmo.
Alô, alô, Patrícia Bicudo, um cavalo de enduro deve ser preferencialmente
sangüineo ou linfático ??
Talvez possa ser o futuro dele ...
Abraços,
Renato”
E nessa mensagem podemos ver o início, ou melhor, a largada para a segunda parte do Caso Jaboré. Logo mais as coisas poderão ficar um pouco confusas, mas achei preferível manter tudo sem cortes e na seqüência, para retratar o melhor possível a interação que existiu entre pessoas diversas, assuntos diversos e um cavalo.
Na msg 3363 continuava o debate sobre a questão da sobrepassada. Agora, com o Bjarke.
“Oi Ary (e Renato),
O fato de alguns cavalos elásticos, apresentando boa "sobrepassada", se tocarem, me parece geralmente uma conseqüência do desequilíbrio da pouca idade, como você Ary bem observou, ou de casqueamento precário com pinças longas e cascos "achinelados", ou ainda de quartelas longas, caídas e mal anguladas. Estas são algumas razões e defeitos que podem fazer o cavalo se "tocar". Outros defeitos fazem com que os membros se toquem lateralmente, geralmente os posteriores, causando cortes nos boletos (não será este o caso que você relata do seu cavalo, Ary?)
Acho muito interessante a sua pergunta a respeito da sobrepassada. Também chamada de "ultra-pegada", é sempre sinal de maior amplitude, energia, flexibilidade e rendimento do animal. Portanto é uma virtude desejável no cavalo bem equitado. Isto de "levar o movimento mais para os anteriores" não seria a característica de qualquer andamento alongado, quando o centro de gravidade do cavalo se desloca mais para a frente ? Nos andamentos reunidos, com passadas mais curtas e movimentos mais "alçados" o cavalo está com o peso sobre os posteriores. Mas isto não significa que nos alongados o peso não deva ir mais para a frente. Na antiga "Alta Escola" ninguém alongava os cavalos ao trote; isto foi introduzido no Dressage moderno, por isso os manuais antigos não tratavam, não gostavam e não entendiam a "sobrepassada". Talvez aí esteja a origem da sua dúvida. Vamos refletir juntos e trocar mais idéias sobre o assunto.
Saudações eqüestres,
Bjarke”
Logo em seguida, a 3364 traz a Mara sugerindo medidas práticas.
“Olá Renato,
Com as fotos que você mandou dá para ter uma noção do tipo de cavalo que é o
Jaboré. E parece ser dos bons! O problema que ele apresenta pode ter muitas
origens. Pode até ser o defeito de uma virtude, que é a amplitude da
passada. No trote e na marcha batida bem diagonal (próxima ao trote), o
cavalo de movimentos amplos tem maiores possibilidades de se alcançar
durante as trocas de apoios, quando o pé e a mão do mesmo lado se encontram
(como está acontecendo na sua 1ª foto).
Nos cavalos de marcha isto é mais
difícil de acontecer porque a passada é dissociada, ou seja, quando o
posterior chega a mão já saiu, mesmo que isto seja imperceptível a olho nú
em muitos casos de marcha batida. Na marcha picada é fácil de perceber
porque o movimento é mais lateralizado e a mão sai do chão bem antes do pé
chegar. No cavalo de andadura (ou guinilha) a lateralização é completa: mão
e pé do mesmo lado se movem juntos na mesma direção (igual a camelo). Neste
caso é impossível o cavalo se alcançar.
Normalmente todos os casos são corrigíveis com casqueamento e ferrageamento
especiais. As técnicas devem variar de ferrador para ferrador e alguns deles
guardam seus segredos. Aqui na Desempenho temos dois cavalos que se alcançam
SÓ quando são ferrados e a correção consiste principalmente em aumentar
ligeiramente a angulação dos pés e "rolar" as pinças. Uma intervenção muito
pequena, às vezes de 1 milímetro apenas, costuma ser suficiente. A
orientação dos podologistas é de não grosar as paredes do cascos
lateralmente, nem cortar as pinças. O correto é que todo o trabalho de
desbaste seja feito só na palma (por baixo) do casco. Mas, neste caso, não
encontramos alternativa a não ser reduzindo um pouco a pinça.
Outro recurso
é provocar uma ligeira dissociação entre os membros (suficiente para alterar
o vôo dos cascos), usando uma ferradura um pouco mais pesada nas mãos.
Nas fotos, o piso do seu redondel parece ser muito pesado mesmo. Isto num
cavalo mal condicionado pode provocar movimentos mais lentos e arrastados.
Neste caso, saindo em um piso mais duro o problema não deveria ocorrer.
Converse com o seu ferrador e volte a mandar notícias. Gostaria de ouvir a
opinião da Cláudia (alô, alô, cadê você?).
Sobre este assunto o Bjarke está mandando outra mensagem respondendo ao Ary.
Saudações,
Mara Rink”
Bom leitor, estudante aplicado, equitador consciente, o Renato começou a agir. Vejam a 3364.
“Bom dia Mara,
Muito obrigado pelas considerações feitas! Marquei com o ferrador para terça
ou quarta da semana que vem, quando falarei com ele em detalhes sobre o que
está acontecendo. Posso adiantar que ele também preserva as pinças (como bom
ferrador que é), mas vamos ver qual será a solução que ele vai
encontrar/sugerir para o caso do Jaboré. Mandarei notícias ...
Sds,
Renato”
É aqui, na mensagem 3366 que começa, de fato, a segunda parte do Caso Jaboré, que a gente pôde antever na pergunta do Renato alguns dias antes. A partir de agora, “Jaboré para enduro”, com o start deflagrado pela Patrícia.
“Caro Renato,
Os cavalos de sangue árabe são os mais indicados para o enduro, não pelo
sangue quente, mas pela resistência e rusticidade deste belo animal. Árabes
são velozes, não são pesados e têm corações e pulmões maravilhosos. E como o
enduro além de uma prova de resistência é uma prova de condicionamento
(melhor recuperação), o organismo do cavalo conta muito.
Para provas de velocidade livre, onde temos chegado a espetaculares médias
horárias de 17 km/h em 140kms (ou seja, um galope curto) o árabe (ou melhor,
os animais de sangue árabe: anglos, puros ou cruzados) tem sido o vencedor.
Mas nas provas de velocidade limitada/controlada cujas médias variam de 10 a
13kms/h outras raças podem se dar bem também. Muitas pessoas participam com MM
em enduros, inclusive em provas de velocidade-livre. Um exemplo é o Pedro
Wernek, não sei se vc já ouviu falar. Se não me engano ele é do Sul!
Para verificar se o seu animal tem aptidão para o enduro experimente fazer
um teste:
15 kms marcados, com algum local onde vc possa se refrescar durante e depois
da trilha. A velocidade deve estar numa média de 10 kms se a trilha for
muito acidentada e 12 kms/h se a trilha for mais plana. Não force o cavalo
nas descidas (vá ao passo) e exija mais dele nas subidas (isso trabalha o
anaeróbico do cavalo e o condiciona - coração e pulmões).
Antes de encilhar o animal - tire o batimento do cavalo em repouso.
Depois de encilhá-lo e antes de partir para o treino tire novamente o
batimento.
Se conseguir parar no meio do caminho em um local onde o animal possa beber
água deixe-o beber o quanto quiser.
Encerrada a trilha tire o batimento do animal logo após o exercício.
Tire a sela, mantas, cabeçada e deixe ele só com o cabresto: molhe o animal
no pescoço, barriga e entre as pernas dianteiras e traseiras (nunca molhe a
garupa) até que ele comece a resfriar e tire o batimento novamente.
Se o cavalo continuar quente vc deve molhá-lo mais um pouco até que a
temperatura fique confortável para ele.
Referências:
1) cuidado com os terrenos. Escolha estradas de terra sem muitas pedras e
com um piso mais arenoso do que duro. Tb não pode ser muito arenoso porque
isto força demais os tendões.
2) Boas referências para os batimentos:
Basal (cavalo em descanso) de 25 a 40 batimentos/min (BPM)
Cavalo encilhado - normalmente acima de 40BPM
Cavalo logo após esforço - em média 90 - 110 BPM
Cavalo após molhado - deixar abaixar até 56 BPM e verificar qual o tempo que
ele levou para abaixar da frequência em que chegou até os 56 BPM.
Esta
última é a referência mais importante porque no enduro temos que saber o
tempo de recuperação do cavalo e é isso o que faz a diferença.
Isto pode ser melhorado com treinos, mas o cavalo já deve ter uma
predisposição a se recuperar rapidamente.
Ufa, acho que era isso...
Aguardo notícias,
um abraço,
Patrícia B. Barbosa”
Na mensagem do Jeronimo, que a tudo acompanhava quietinho, a constatação do impacto positivo do texto da Patrícia, logo seguida por outra mensagem da Patrícia, a 3371, tirando uma dúvida. E segue-se uma curta troca de mensagens em torno do enduro.
“Valeu Patrícia,
é a primeira vez que vejo uma explicação pertinente sobre o enduro e seus
procedimentos.
Uma pergunta de leigo, os cavalos de sangue frio não tendem a reduzir seus
batimentos mais rapidamente??
Obrigado pela atenção,
Jeronimo Mesquita”
“Caro Jeronimo,
Cavalos de sangue frio são cavalos pesados (pode ser que eu esteja falando
uma besteira porque não sou muito boa neste negócio de sangue quente, sangue
morno e sangue frio). Eles são mais calmos por natureza, mas não têm a
leveza do árabe, os seus pulmões ou seu coração.
O árabe é um cavalo do deserto. Acostumado ao andar contínuo das tribos
nômades e mais ainda às temperaturas do deserto (altas de dia e muito baixas
à noite).
Pense em um cavalo de enduro como um maratonista: magro, musculatura afilada
para manter a resistência, pequeno.
E é por isso que ele leva vantagem quanto aos demais, trata-se de uma
seleção de milênios!
Agora pense em um bretão fazendo enduro...
Saudações arabistas,
Patrícia B.Barbosa”
Msg 3372
“Muito interessante suas considerações, parabens!!!
Perguntei apenas se os cavalos mais calmos, mais tranqüilos, não teriam uma
redução de batimentos cardíacos mais rápida do que os muito sanguíneos,
quentes, muita vontade de correr.
Obrigado,
Jerônimo
Guardei suas informações sobre enduro para praticar depois!!”
Msg 3373
“Jeronimo,
Cavalos mais calmos têm uma tendência natural a baixar o batimento mais
rápido do que os cavalos mais quentes. Contudo, isto em uma prova de enduro
é meio relativo porque o batimento de vet-check não é muito baixo
(normalmente é de 56BPM) e isso faz com que se selecione os cavalos que
realmente estão mais condicionados. Bem condicionado para enduro é aquele
cavalo que baixa rapidamente os batimentos para 56 BPM. Já tive os dois
tipos de cavalos muito bem condicionados e não senti muita diferença entre o
tempo em que baixavam para 56 BPM.Agora, em descanso, o cavalo mais calmo
batia 25 e o mais nervoso batia uns 35 BPM. Aí sim eu via a diferença...
Bom final de semana,
Patrícia B. Barbosa”
Um retorno à questão da sobrepassada na msg 3374.
E vejam só que retorno! O Ary caprichou e até ilustrou!
“Oi Renato , Bjarke e todos do grupo,
Creio que dos vários sistemas componentes de um cavalo -- nervoso , emocional, locomotor, muscular etc.. -- observo que as discussões são mais calorosamente debatidas quando falamos dos sistemas nervoso e emocional . Isto faz sentido pois deles nascem as atitudes comportamentais (e seus efeitos) mais facilmente percebidos pelo ser humano. (cavalo bravo , indócil, amável, obediente etc) .
A equitação, entretanto, envolve tão fortemente o sistema LOCOMOTOR do animal , e ainda assim , infelizmente , o equilíbrio do deslocamento nem sempre é percebido (ou entendido) pelo cavaleiro comum como eu. Discutirmos um pouco sobre a sobrepassada , creio , poderá trazer um pouco de conhecimento "técnico" a todos nós além de benefícios diretos aos nossos cavalos .
Sim Bjarke , os movimentos alongados, naturalmente levam o ponto de equilíbrio (centro de gravidade da massa - cavalo/cavaleiro) mais para frente. Isto se dá, acredito, por uma influência muito forte da cabeça e do pescoço do animal que, nesta situação, está em um "frame", mais para frente ( pescoço esticado) e mais para baixo ( em relação à linha da coluna ). Em contrapartida , em movimentos reunidos , o centro de gravidade é trazido mais para trás , em direção aos posteriores , e , nesta situação , a cabeça e o pescoço estão mais elevados , fazendo com que a maior parte do peso fica a cargo dos posteriores.
Quanto ao cavalo "estar nos anteriores" em movimentos alongados ( sobrepassada) , isto parece ser matéria de discussão das boas. Tenho visto defensores dos dois lados .Alguns dizem que mais que olhar a amplitude da passada , temos que observar o grau de flexão da garupa para se dizer que o movimento esta nos anteriores ou não. Alguma coisa como um equilíbrio nas forças (geradas nos posteriores ) que levam a massa a frente ( vetor horizontal ), e outras que sustentam o peso ( vetor vertical ) durante o deslocamento. O compromisso desigual (incremento /aumento) de uma dessas forças em detrimento da outra, poderá produzir amplitude de passada porém "jogando " o movimento para os anteriores.
Particularmente , vejo a sobrepassada como algo positivo e benéfico ao cavalo em treinamento (até para "aliviar" os movimentos reunidos) produzindo passadas enérgicas , amplas e com rendimento, como você bem disse em sua mensagem.
Encaminho abaixo algumas ilustrações que poderão ser úteis à visualização do centro de gravidade e distribuição de peso do cavalo .
Abraço,
Ary”
Este pontinho azul é o local onde se encontra o ponto de equilíbrio do cavalo estático (algum lugar entre a 12a. e 13a. vértebra intercostal). Abaixo a distribuição do peso entre os membros do cavalo.
Temos, agora, na mensagem 3375, um retorno ao enduro, com uma questão levantada pelo Duda. Vocês já devem ter observado que as mensagens sucederam-se em alta velocidade. Esses dois temas, realmente, puseram fogo no Fórum Desempenho. No bom sentido, claro.
“Patrícia:
Gostei muito da tua mensagem. Cristaliza o perfil dos enduros, para mim a maior prova da capacidade de um cavalo. Correr 264 metros (2 quadras) em menos de 16 segundos, só um bom quarter horse faz. Mas, fazer 140 quilômetros numa média de 17 kg por horra, acredito que nenhum outro animal faz a não ser os pássaros e os cavalos.
Patrícia, desculpa a minha ignorância, mas eu te pergunto: como se daria um mangalarga marchador, como o Jaboré, por exemplo, num enduro de 140 kg, disputando contra mangalargas paulistas, quartos de milha e árabes?
Um abraço do amigo
Eduardo (Duda) Festugato”
E agora, de volta à sobrepassada, com a participação da Claudia na mensagem 3382.
“Oi Renato, Mara e demais,
não tive tempo de me manifestar antes. Tudo que foi colocado parece fazer bastante sentido. Gostaria de lembrar que reunião, alongamento, engajamento, etc, tudo isso acontece em graus, nunca em termos absolutos. Muitos cavalos que têm muita facilidade para transpistar (sobrepassada), o fazem por assim dizer antes de estarem prontos, equilibrados e musculados, para tanto. O resultado é o peso exagerado sobre o antemão, resultando em desequilíbrio. Em outras palavras, não devemos exigir antes da hora o aumento máximo da amplitude do movimento. (Falo, é claro,de cavalos de trote, mas creio que haja bastante, se não total, similaridade.)
O ferrageamento corretivo, ou paliativo, pode ser como o descrito por Mara. O recurso descrito por Mara, de atrasar a ferradura e/ou cortar a pinça, é largamente utilizado em cavalos de hipismo. Gostaria de lembrar que a maioria absoluta dos ferreiros peca não por cortar a pinça, mas exatamente pelo excesso, removendo muito mais os talões do que a pinça, o que ao longo do tempo resulta em cascos achinelados, o que leva a tropeços e interferência no movimento.
Tive diversos cavalos com todos os tipos de interferência, se tocando (pares colaterais dos membros) ou se alcançando (posterior no anterior). A maioria se resolveu "sozinha", ou seja, sem medidas específicas, apenas trabalhando diariamente e ferrando da maneira mais equilibrada possível. O cavalo jovem e/ou pouco trabalhado, com os músculos subdesenvolvidos, ainda não sabe andar corretamente, especialmente quando solicitado a se empregar de maneira mais enérgica do que o faria espontaneamente. E mesmo cavalos velhos tortinhos (ruins de aprumos) podem aprender "sozinhos" a andar de modo a corrigir estes defeitos. Afinal, ninguém gosta de tropeçar nos próprios pés.
Em resumo, eu investiria no melhor ferreiro disponível (uma dica: ele deve analisar o cavalo em movimento, não apenas parado) e seguiria trabalhando normalmente, apenas com o cuidado de não pedir o "máximo" das andaduras antes da hora. O cavalo provavelmente parará de se alcançar num prazo aproximado de um ano. Enquanto isso, caneleiras e outros protetores são uma excelente opção!
Abraços,
Claudia”
De volta ao enduro, na msg 3386, onde a Patrícia responde ao Duda e faz um interessante exercício de imaginação no final. Vejam só.
“Caríssimo Duda,
No início do enduro no Brasil tivemos alguns mangalargas marchadores de destaque no esporte. Um deles, que ganhou a categoria longa (140 a 160 kms) do Campeonato Brasileiro de 1.995 - acho (o Morumbi Dominium) acabou sofrendo de laminite e teve que ser sacrificado. Era um animal tordilho, de bom porte, montado por uma veterinária do RJ, a Dra. Tanja Hess. O cavalo acabou ganhando o campeonato pela regularidade de seus resultados. Que me lembre, nunca chegou entre os primeiros, porém terminou todas as provas do campeonato e sagrou-se campeão pelo geral.
Mangalargas paulistas têm alguns tb, mas geralmente estão nas provas de regularidade, que vão até 60 kms. São animais mais agitados, mas conheci alguns que iam bem nessas provas de regularidade. A égua Cigana, montada por uma veterinária aqui de São Paulo fez bonito até a categoria C (cerca de 50 a 60 kms) no Campeonato Brasileiro.
Quarto-de-milha puro no enduro nunca vi, ou pelo menos não me lembro... Há um cavalo 1/2 sangue árabe e 1/2 sangue quarto de milha que foi muito bem em provas até 80 kms (categoria média distância), ganhando provas importantes como a Prova Internacional realizada em Holambra/2.000. O cavalo chama-se Black Boy e está agora com a Luciana Grande.
Mas o árabe predomina. A equipe brasileira que vai para o mundial foi escolhida esta semana, após uma seletiva em Avaré (prova de 160 kms).
Os cavalos são:
Von Herte Kim – PSA
Af Metro – PSA
Badan - PSA
Shogun da Barra - Anglo Árabe (AA)
Clementina - CZA (cruza-árabe com criolo)
e um outro cavalo do Haras Guaritá que não me recordo o nome, mas tb é um PSA.
Note que os cavalos de sangue árabe realmente predominam, por isso acho que fico com árabe em 1º, MM em 2º, paulistas em 3º e quartos de milha em seguida!
Um abraço,
Patrícia B. Barbosa”
Na mensagem 3387 o Jeronimo, acompanhando atento, volta com mais questões sobre o enduro, e a Claudia, na mensagem 3389, depois de falar sobre a sobrepassada, entra no assunto enduro e na “temperatura” dos sangues. E, aqui, ela fala também sobre o resfriamento dos cavalos, com uma informação que, até então, era nova para muitos dos participantes do Fórum, a própria Patrícia, inclusive.
“Obrigado, suas explicações ajudaram muito.
Porque a marca de 56BPM é a padrão?
Vc sabe como se chegou a ela??
Abraço e bom inicio de semana,
Jeronimo”
“Oi pessoal,
vou me meter no assunto, já muito bem explicado por Patrícia, para evitar maiores confusões semânticas.
As expressões "sangue frio", sangue quente, etc, geram certa confusão especialmente em Português. Aqui no Fórum, acredito que todos sabem que elas não tem nada a ver com a temperatura corporal dos animais, em todos os cavalos normalmente na faixa de 38 a 38,5o C.
No entanto, às vezes pensamos que estas expressões se referem ao temperamento dos animais, tal como em sanguíneo, linfático, etc. A confusão procede, pois no anglo-saxão original, tanto em inglês como em alemão, o "sangue frio" (cold blooded, Kaltblut) se refere ao temperamento calmo e linfático dos pesados cavalos de tração originários dos países setentrionais (no paleolítico, o "cavalo da floresta"). Mais tarde, o árabe e seu descendente direto, o PSI, foram considerados "puro-sangue", o que, tanto em inglês (Throughbred) como em alemão (Vollblut) tem o mesmo sentido que em português, "de criação apurada", "de puro sangue", ou seja, a origem NÃO É "de sangue quente". A confusão aumentou depois, com o surgimento dos modernos cavalos de esporte, anteriormente as montadas da cavalaria, obtidas por base de éguas de tração ligeira refinadas pelos puro-sangue. É isso que se chama de Warmblut, warmbloods, para indicar o "intermediário". A expressão "sangue morno" nunca pegou em português, e na verdade ela é até incorreta, pois há muitos warmbloods tão temperamentais ou mais que os puro-sangue. Costumamos usar e recomendar a expressão "cavalos de hipismo" para este grupo.
Agora, ao enduro. A característica mais importante dos cavalos competitivos no enduro é sua capacidade de rápida recuperação, atingindo frequências cardíaca e respiratória, e temperatura corporal, próximas aos valores de repouso com a maior rapidez possível. Isto, tanto para passar no exame veterinário, quando para capacitar o organismo a resistir aos rigores da prova sem sofrer de síncope, insolação, choque térmico, desidratação. O temperamento do animal tem uma certa parcela de importância nesta recuperação (a FC do cavalo nervoso está sempre "subindo à toa", ele tem sudorese de origem nervosa, etc), mas o principal é mesmo a aptidão metabólica para este tipo de esforço. Aí se alia a predisposição racial, fenotípica e genética, a um correto condicionamento.
Porque os melhores maratonistas são pequenos e magros? É que em qualquer corpo tridimensional a relação entre volume e superfície aumenta exponencialmente, à medida que o corpo aumenta. (a superfície é uma medida bidimensional, ao quadrado, enquanto o volume é tridimensional, ao cubo. É só fazer as contas.) O indivíduo gordo e/ou pesado tem mais facilidade de conservar o calor metabólico, já o leve e magro dissipa calor com mais facilidade. É por isso que as florestas da era glacial favoreceram o surgimento de cavalos pesados, tipo tração, enquanto o deserto originou o proto-árabe. E é por isso que o árabe e seus mestiços, em todo o mundo, dominam os enduros longos de velocidade livre.
A meu ver, um grande problema do enduro como esporte é que a avaliação continua sendo feita em função de valores absolutos de FC, o que acaba favorecendo os animais fisiologicamente bradicárdicos, nem sempre os melhor condicionados. O correto talvez seria dar-se um jeito de estabelecer o valor basal de cada cavalo, e depois analisar a velocidade com que ele se aproxima deste valor, quando em repouso, que é o índice que melhor aufere o verdadeiro condicionamento físico. Vamos lembrar também que a capacidade de conviver com a hipertermia metabólica causada por estas provas, e a velocidade de voltar à temperatura normal, são importantíssimos. (Os cavalos, num dia quente, chegam aos boxes com temperaturas retais de 41o C.)
Em tempo, Patrícia, estudos desde 1995 comprovaram na prática que a velha noção de que os grandes grupos musculares não podem ser molhados com água fria, logo após o esforço, é equivocada e ultrapassada. Atualmente, tanto em enduros quanto no CCE, o procedimento adotado nos intervalos entre fases é lavar copiosamente, incluindo dorso e garupa, os cavalos com água a zero grau, o que traz tremendos benefícios e rebaixa os parâmetros com muita rapidez. Este procedimento começou a ser divulgado nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, onde estive como tratadora. Os índices de recuperação de cavalos de equipes resistentes em adotar esta nova prática (Suécia, Alemanha - países frios) foram piores que os dos demais. Atualmente, a prática é amplamente adotada, e sabe-se que não há relação entre a miosite de esforço e o lavar da garupa com água fria. (Se o cavalo "trava", é porque ia travar de qualquer maneira, por problemas metabólicos.)
Abraços,
Claudia”
Mensagem 3390 – a resposta da Patrícia sobre as 56 bpm.
“Caro Jeronimo,
a discussão sobre o parâmetro do batimento é bem antiga e acalorada no meio
do enduro. As condições climáticas e da trilha dão uma certa maleabilidade
no batimento de 56 BPM, porém esta é uma margem segura para os veterinários
determinarem as desclassificações dos cavalos.
Um bom início de semana para vc tb,
Um abraço,
Patrícia B. Barbosa”
O baile continua entre sobrepassada e enduro. O próprio Renato traz de volta a sobrepassada na mensagem 3391.
“Olá Ary, Bjarke e demais,
Na verdade, falar sobre o sistema locomotor do cavalo não é fácil. Talvez as discussões não vingam como deveriam porque sentimos dificuldade e/ou insegurança em transformar as percepções que fazemos na prática, em textos compreensíveis (ao menos da minha parte). De qualquer forma é um assunto vibrante.
Gostaria de dar destaque a duas frases do texto do Ary:
"Alguns dizem que mais que olhar a amplitude da passada , temos que observar o grau de flexão da garupa para se dizer que o movimento esta nos anteriores ou não"
"O compromisso desigual ( incremento /aumento ) de uma dessas forças em detrimento da outra, poderá produzir amplitude de passada porém "jogando " o movimento para os anteriores"
Essa visão fez-me recordar de uma frase dita por um treinador (se não me engano o Bertolani): Quero o cavalo engajado, seja num galope reunido, seja num passo alongado. Ora, num primeiro momento conseguir o passo alongado "engajado" parece contraditório. Mas não o é. Equivale dizer que o cavalo mesmo com movimentos alongados e com seu ponto de equilibrio deslocado para frente, ele deve estar
equilibrado, com os posteriores surpreendentemente fortes para não deixar o peso cair na frente. Isto, explicaria porque o Jaboré e outros potros acabam se tocando. Porque neste estágio não tem força suficiente para segurar os movimentos nos posteriores.
Vejamos como exemplo os cavalos de apartação. Trabalham com o pescoço mais baixo que a coluna e a cabeça lançada para a frente, mas os posteriores são poderosos, inseridos sob a massa do cavalo e são eles que tracionam toda a força. Os anteriores ficam somente como pontos de equilibrio e direção. Estes cavalos só conseguem chegar neste estágio com muito trabalho de reunião, flexão direta e flexão lateral, isto já no segundo ano de equitação.
Neste contexto, a sobrepassada volta a ser muito desejável, num cavalo corretamente equitado, ou seja, com os movimentos nos posteriores mesmo em movimentos alongados.
Abraços,
Renato”
Como o Fórum é eclético, e por isso rico, na mensagem 3394 o Duda coloca os dinossauros no enduro. :o)
“Cláudia:
Magistral a tua aula! Permita, apenas, juntar uma brasinha nesta tua imensa fogueira que nos ilumina:
Há uma teoria que explica a extinção dos dinossauros exatamente devido à dificuldade que têm corpos gigantescos, como os deles, em dissipar o calor metabólico, devido à baixa relação de contato entre a área da pele com o ar. Poderíamos comparar com um carro com o radiador muito pequeno. O superaquecimento será inevitável.
Saudações eqüestres
Eduardo (Duda) Festugato”
Mensagem 3399: a Claudia mexe em vespeiro. E, para informação de vocês, essa mensagem e já algumas das anteriores, são do primeiro dia da terceira semana de debates.
“Oi Patrícia,
gostaria de submeter à consideração geral a noção de que, de todas as raças de sela, o Quarto-de-Milha PURO é provavelmente o menos adequado ao enduro. (Dito não por mim, porém por literatura especializada.) Isto porque foi selecionado para ser velocista, com o seu fenótipo tão diferente do maratonista de que falamos em mensagens anteriores quanto o do Carl Lewis daqueles corredores africanos (desculpe, não lembro de um nome; não é discriminação, são seis da manhã mesmo).
A massa muscular pesada super-aquece em esforço prolongado, especialmente se não tiver um sistema de refrigeração a ar (ou seja, pulmões) compatível. Não houve grande preocupação em desenvolver os pulmões do puro quarto-de-milha, cujos esportes são anaeróbicos por excelência, curtíssima duração e alta explosão muscular - corrida de 400 m, tambor e baliza, etc. Vocês sabiam que o atleta humano não respira durante os aprox. 10 segundos da prova de cem metros? Pois é, o cavalo QM também só respira depois do tiro de 400 metros... ou seja, depende-se mais da musculatura de contração rápida (metabolismo anaeróbico).
Após o árabe e seus mestiços, eu diria que o crioulo e um mestiço rústico de PSI (por exemplo, PSI com crioulo) seriam os mais adequados ao enduro. Eu também jamais desprezaria um bom mangalarga. Não esqueçamos de que nestas raças nacionais (nas mãos de criadores preocupados com as pistas de exposição), pouquíssimos dominam a arte do condicionamento físico. Agora, isso até os 100 km, como Patrícia bem colocou. As estatísticas internacionais estão claras, basta acessar o site da FEI - os árabes dominam este esporte. (As exceções, que há, confirmam a regra.)
.-.-.-.-
Abraços,
Claudia;
Mensagem 3401, continua o debate em torno do enduro.
“oi Patrícia,
de fato, praticamente não estou mais ativa no enduro, mas sei que a técnica da água geral é recomendada para todos os cavalos. No dia de cross do CCE, os cavalos são atendidos em três "boxes", como segue: (as distâncias e respectivas velocidades podem ser maiores ou menores, depende do grau de dificuldade da prova)
Fase A - aprox. 6 mil metros, a 220 m/min, seguida imediatamente pela
Fase B (steeplechase), uns 2 mil metros a 550 m/min, cuja chegada é a largada da
Fase C - 7 mil metros a 220 m/min, em cujo início há o primeiro box de dez minutos, onde os cavalos são resfriados, e os veterinários tomam as frequências e temperatura. Antes do início da
Fase D, que é o cross propriamente dito, 4 mil metros a 500 m/min com uns 25 obstáculos, há novo box de 10 minutos, com o mesmo procedimento de resfriamento. Após a chegada do cross, os cavalos são novamente desarreados, esfriados e só liberados pelos veterinários quando os parâmetros tiverem alcançado valores satisfatórios. Se você somar, verá que os cavalos ficam por volta de uma hora em movimento e atividade, em velocidades entre o trotinho e o galope de corrida. Muito menos que um enduro, porém muito mais que uma prova de salto, por exemplo.
O consenso é que a hipertermia é, de imediato, o fator mais importante e urgente a corrigir, pois tanto FC quanto FR elevadas decorrem em consequência de buscar o resfriamento urgente do organismo (exatamente como a história do radiador e do motor que ferve). Isto não depende tanto do tipo de fibras musculares, esta distinção é muito mais bioquímica (metabolização de glicogênio x de oxigênio) do que de irrigação sanguínea, ou seja, as fibras brancas não são visualmente "brancas". Pelo contrário, quanto mais aeróbico o metabolismo, mais o músculo depende de um pronto resfriamento para assegurar o funcionamento prolongado.
Em suma, por tudo que vi, pode tacar água gelada sem susto, na minha opinião. A temperatura corporal de 41o C é muito mais prejudicial do que qualquer outra coisa. Acho que é análogo à história de pular no lago gelado, depois de sair da sauna. Realmente o frio na hora nem é percebido como tal. E os cavalos adoram, experiência própria - saem trotando, sequinhos e felizes, prontos pra etapa seguinte.
Abraços,
Claudia”
E a resposta da Patrícia na msg 3405.
“Cláudia,
interessante. Acho que agora não restaram dúvidas. Vou experimentar então e...passar pra todo mundo do enduro!
Vai ser um auê (quer royalties pela dica?).
Um abraço e obrigada,
Patrícia B. Barbosa”
O Julio, que andava fora, aparece na msg 3406, alimentando bem a conversa e mais informações, inclusive uma recomendação sobre treinamento inicial para o Renato, sobre o enduro. E, de quebra, toca na questão sobrepassada, também.
“Estive fora uns dias e não aproveitei o papo sobre enduro.
Antes tarde do que nunca.
Patrícia, precisamos nos conhecer pessoalmente, deverei estar na prova de Bragança, tenho dois conjuntos na seleção para Young Rider.
A idéia geral é que qualquer cavalo bem treinado é competitivo em provas de até 60 Km, a partir daí o sangue árabe faz a diferença. Evidente que as exceções servem para confirmar a regra,
temos a Lady Coffe ½ sangue quarto de milha e PSI que é um excepcional animal de enduro, ou Quicas do Pedro Werneck MM que chegou a participar de uma prova de Young na Inglaterra e tirou quarto lugar, o próprio Morumbi lembrado pela Patrícia. De provas de enduro no Sul temos
tido notícia dos bons resultados do crioulo. Existem muitos enduristas que afirmam que o cruza árabe é melhor que o puro, são preferencias pessoais, o importante é verificar que o sangue árabe faz a diferença nas provas acima de 60 Km.
Ou seja para iniciar, testar, conhecer e tomar gosto pelo esporte o “seu” cavalo é o ideal. O teste proposto pela Patrícia é bom, mas preceda um treinamento básico aeróbico, baixa velocidade em distancias relativamente longa, (três vezes por semana, trabalhos de 1 a 1:30H em 10 a 15 km).
Me parece, também, que as colocações da Cláudia são pertinentes, têm muitos enduristas, eu incluso, que molha integralmente o cavalo, mas aconselho que novos enduristas com animais em início de condicionamento tenham cuidados com as áreas de maior musculatura.
Não me parece que a dúvida seja entre o animal sanguineo ou linfático. Considero que além do biotipo necessário o cavalo tem que gostar do que faz, acredito que ele (o cavalo) tem preferências. Hoje em dia, no enduro, não é mais permitido o uso de esporas e o uso de chicote é
bastante restrito, assim o cavalo tem que ter vontade de competir no enduro.
Nesta ultima prova, em Avaré, vi animais que após 90 Km de prova na saída para o ultimo anel faziam piaffer, doidos para pegarem o adversário que tinha largado na sua frente. Esses mesmos animais fizeram média de 18, 19 Km após terem percorrido os 90 Km iniciais. Lá em casa
tenho um excepcional animal (PSA) de sangue quente, e um outro que está indo pelo mesmo caminho (CZA) que é bem mais calmo mas adora andar (quanto mais anda, o danado
quer andar).
Sobre o Batimento limite, esses números cabalísticos, se não me engano, foram inicialmente propostos pelos australianos, e depois adotados por todos como parâmetros confiáveis de bom estado do cavalo. Vejam bem, o enduro nos seus primórdios era uma corrida de longa distância,
sem parâmetros, sem limites, imaginem o caos, era terminar a corrida e contar as baixas . Depois passou-se a considerar a necessidade de criar limites e barreiras no sentido de preservar os animais, os batimentos limites vão de 56 a 64, em provas mais longas (160 Km) vale o 64,
em provas mais curtas - 60 km - o limite é 56. Ou seja, quanto maior a possibilidade de abusar do cavalo os limites são mais rigorosos, ao batimento soma-se outros fatores clínicos e metabólicos de tal sorte que há muito tempo não temos tido animais em condições precárias em provas.
Sou de opinião, também, que o fato do animal se tocar é devido, principalmente, ao esforço acima do suportável para o seu estado atlético, o ferrageamento e principalmente a equitação contribuem, mas se o cavalo está se tocando pare e reflita. Ele está dizendo “devagar
com o andor que eu não sou máquina”.
Se depois de você atentar para o esforço/condicionamento, verifique com o ferrador e com o espelho. Aliás, ter um bom ferrador, um bom veterinário e buscar se aprimorar e
reciclar a equitação é um bom conselho para qualquer amante de cavalos.
Voltando ao enduro, vamos ter uma prova dia 4 de maio aqui no Rio, teremos provas com 25, 35, 45, e 85 km, é uma boa oportunidade para se conhecer o esporte, apareçam e tragam seus cavalos.
Abraços
Juliovb”
E o enduro continua rendendo mensagens, como a da 3408, da Claudia. E o Jaboré? Pois é, será que esquecemos dele?
“Oi Patrícia,
não tenho direito a royalties, pois a idéia não é minha, e sim desenvolvida por cientistas após anos de pesquisa e testes. Infelizmente, não tenho referências bibliográficas à mão. Quem deve tê-las é o Dr. Reuel, delegado veterinário da FEI, muito gente boa, e-mail reuel@dglnet.com.br . Em tempo, as técnicas de resfriamento agressivas são importantes especialmente em dias de clima quente e úmido. Existe um valor, somando-se em valores absolutos temperatura ambiente em Fahrenheit e umidade relativa do ar, sempre que este valor for superior a ... ? xyz (acho que é 160, mas não copie, tenho que verificar), o dia é considerado crítico em relação a capacidade de recuperação dos cavalos, e portanto o resfriamento agressivo passa a ser recomendado.
Em tempo, assista a um CCE quando puder, e divirta-se com a galera e os cavalos tomando banho de água com cubos de gelo. Melhor ainda, pergunte à Paulinha, que tem muito mais experiência prática do que eu nesta área.
Abraços.
Claudia
Voltando à sobrepassada do Jaboré, na mensagem 3419 o Renato nos conta uma novidade muito boa. Vejam só.
“Olá pessoal,
O Jaboré foi ferrado ontem à tarde. Os irmãos Schultz (ferradores) fizeram (creio) um trabalho muito bom. Depois de explicar-lhes o que estava acontecendo e sem precisar pedir, um deles puxou o cavalo pelo cabresto, enquanto o outro ficou a observar. Além de corrigirem a direção, trabalharam muito a angulação para consequentemente encurtar a pinça. No final, não foi preciso "rolar" a pinça. Comparando o resultado com o livro do TOLEDO sobre ferrageamento, o que vi, me agradou.
À noite fiz um treino de 30 minutos, propositalmente no redondel de areia, onde o piso está excessivamente pesado. Entre, passos, trotes, marchas e galopes dos mais variados, nenhum choque.
Gostaria de agradecer a todos (sem exceção) que participaram dando sugestões e passando experiências, pois foram fundamentais para a compreensão do que vinha ocorrendo. MUITO OBRIGADO.
Considerando toda a discussão parece-me que, resumidamente, três fatores interligados tiveram relação direta com os choques ocorridos:
- O potro Jaboré tem um sobrepasso excepcinal. Andando livre, fica um espaço livre de 10/12 cm entre a marca do casco traseiro e a marca do casco dianteiro.
- Faltou sensibilidade de minha parte para perceber a falta de condição física deste potro, quando lhe pedia movimentos mais alongados, em virtude de sua pouca idade e tempo de equitação.
- O casqueamento embora estivesse bom, poderia e agora deverá ser melhor e específico, para atender as peculiaridades deste cavalo.
Um abraço a todos,
Renato”
Vou destacar um trecho da mensagem do Renato:
“Gostaria de agradecer a todos (sem exceção) que participaram dando sugestões e passando experiências, pois foram fundamentais para a compreensão do que vinha ocorrendo. MUITO OBRIGADO.”
Tenho certeza que todos ficaram muito felizes com tudo. Principalmente, diria, o Jaboré. E quero fazer um pequeno comentário. O Renato, a quem só conheço pelo Fórum, é um cara curioso: vive dizendo que aprende no Fórum, mas, na verdade, vejo-o freqüentemente ensinando. :o)
E, em todo esse caso, sua participação – que ainda não terminou – foi muito legal, extremamente positiva. Com certeza ele chegaria ao mesmo resultado com o Jaboré, pois pesquisa, pergunta, se informa, lê, aprende. E parece que os irmãos Schultz são bons no que fazem, né? Mas, com certeza, a agitação que ele promoveu no Fórum, as participações diversas e muito enriquecedoras, ajudaram e aceleraram o processo de aprendizado.
Nesse período, outras mensagens correlacionadas foram trocadas, mas devido ao tamanho tive de corta-las, uma pena. Mas o Fórum está aí, basta acessar e ver todas elas dessa fase. Tem coisas bem legais.
Bom, essa “pérola” poderia ficar por aqui, vocês não acham?
Ok, então ela vai ficar, pois o tamanho... cruzes! Até eu estou assustado. Mas breve virá mais um bocadinho. Sim, porque o “Caso Jaboré – um cavalo forense” ainda não chegou a seu final. Aguardem.
Emerson
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