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primeiras décadas do século 20, ficou evidente
que a velha sociedade, a velha economia, o velho sistema
político e o velho poder eqüestre haviam se
esgotados nos países desenvolvidos. Pela primeira
vez na história, uma superioridade em cavalos e cavalaria
não tinha mais o poder de favorecer o destino das
nações. Na economia, a energia elétrica
e o petróleo substituíram a força do
cavalo, e nos transportes até a ridícula bicicleta
podia ser mais veloz. Depois de participar decisivamente
do desenvolvimento social, econômico e militar da
humanidade por seis mil anos, o Homo-caballus desocupou
rapidamente o cenário internacional e passou a habitar
apenas lugares onde a modernidade não havia chegado
ou o saudosismo não havia partido.
S
e
examinarmos fotos das grandes capitais do mundo, tiradas
nas duas primeiras décadas do século 20, veremos
nas ruas alguns poucos automóveis e bondes elétricos
no meio de um mar de veículos puxados a cavalos.
'Conduzir um cavalo puro-sangue ágil, dócil,
senti-lo obedecer às mais súbitas exigências
sem hesitações, compreendendo instinctivamente
a vontade do cavalleiro, ou ainda lançá-lo
a galope para contê-lo, repentinamente, com uma leve
pressão de mão ou do pé - é
prazer idêntico de quem dirige um carro Lincoln' -
dizia um anúncio da Lincoln Motor Company, publicado
em 1928. As emoções da equitação
ainda eram suficientemente fortes para atrair consumidores
para o automóvel. Mas, esta realidade começou
a se inverter nas fotos tiradas a partir da terceira década.
Repare só: em Chicago, Londres e Paris há
alguns veículos de tração animal perdidos
no meio do tráfego de automóveis e ônibus
elétricos, no Brasil chamados de bondes. Até
o trole puxado por burros estava sendo substituído
pelo ônibus elétrico. "Eram caminhões,
bondes, autobondes, anúncios luminosos, relógios,
faróis, rádios, motocicletas, telefones, gorjetas,
postes, chaminés... Eram máquinas e tudo na
cidade era só máquina" reclamou Mário
de Andrade sobre São Paulo, na década de 30.
Na primeira metade do século, na Grão Bretanha,
a principal potência econômico-militar do mundo,
a família real inglesa, assim como o cavalo, passou
a ter função meramente ornamental e protocolar
na função do governo. Durante a reorganização
militar da Grã Bretanha, acontecida no final da década
de 30, os dragões do Enniskillen foram um dos últimos
regimentos da cavalaria a serem mecanizados. Numa foto emocionante,
publicada na revista Life em 1939, vemos um jovem e engalanado
oficial de cavalaria dando um beijo de despedida no seu
cavalo de guerra. Um estilo de vida estava desaparecendo.
Mas, em nenhum outro país a reforma militar foi mais
rápida do que nos Estados Unidos. Até o verão
de 1940 toda a cavalaria foi transformada em unidades mecanizadas.
Até mesmo a 7a Cavalaria, do famoso general Custer,
que tinha sido toda recauchutada depois de ser atropelada
por Touro Sentado em Little Big-Horn, passou pela indignidade
de ser transformada numa unidade de helicópteros
(que atuou com helicópteros 'Apache' durante a guerra
no Kosovo).
A previsão de Caprilli se concretizara — a utilidade
da cavalaria militar chegara aos estertores. A Segunda Guerra
Mundial já foi uma conflagração essencialmente
mecânica. Entretanto, em meio ao cenário de
destruição da Grande Guerra, a revista Life
publicou uma foto da visão futurista do destino do
cavalo e da equitação: os participantes da
caçada anual de Aldeham, liderados pelo Major Sir
Jocelyn Morton, vestidos de fraque vermelho e capacete preto
perseguindo - entre os escombros das casas de uma vila bombardeada
- uma raposa. Você está rindo? Então
você não conhece o upper crust—a nata—da
sociedade inglesa (1).
Mas, em 1942, o exército alemão cambaleava
por todos os 3 mil quilômetros da frente Russa, diante
dos ataques da infantaria, artilharia e cavalaria vermelha.
Estas ofensivas seriam os últimos assaltos de cavalaria
a terem uma participação vitoriosa numa guerra
moderna. Mas o fim do cavalo de batalha não estava
próximo, já havia acontecido. Conto, pois,
como foi a última cena da derrocada do Homo-caballus
e do estilo de vida que o cavalo nos possibilitou por sessenta
séculos de convivência. Uma história
dramática que decepou, com um só golpe, o
cavalo do processo civilizatório da humanidade, deixando-nos
sozinhos na fria companhia das máquinas.
Dia 16 de agosto de 1939, as tropas da Alemanha invadiram
as cercanias da cidade de Kutno, na Polônia. O oficial
polonês de plantão ordenou imediatamente uma
carga de cavalaria contra os Hunos do Terceiro Reich. Os
galantes oficiais poloneses e seus nobres cavalos de guerra
lançaram-se de peito aberto, crinas ao vento e espadas
em riste contra as forças inimigas - como sempre
o fizeram por toda a história da humanidade. De repente,
acima do tropel ensurdecedor dos cavalos, ouve-se o que
parece ser uma longa e intensa trovoada de verão.
O fogo mortal dos 'panzers', germânicos abateram,
de uma só vez, todo o esquadrão de cavalaria
polonês. Mortos estavam cavalos e cavaleiros - no
chão, o centauro esquartejado. Terminada estava a
era de supremacia militar do Homo-caballus.
A Revolução
Industrial criou bens materiais de todo o tipo. Promoveu
o camponês do século 17 a burguês do
século 18, a cidadão no século 19,
e este a consumidor no século 20. Novas tecnologias
e novas idéias foram rapidamente transformadas em
produtos de consumo e davam o máximo de conforto
ao camponês, aliás burguês, aliás
cidadão, aliás consumidor. A quebra da barreira
do tempo, que possibilitou ao homem anular as distâncias,
atingiu uma tal velocidade que o Homo-caballus, seu inventor,
acabou descartado do processo como o estágio queimado
de um foguete interplanetário. O que será
que o futuro reserva ao cavalo e à equitação?.
(1) O partido trabalhista
inglês conseguiu em 1999 aprovar uma lei que proíbe
a caça à raposa na Inglaterra. Esta foi a última
vingança política do partido dos trabalhistas
do século 20 contra o 'mundo do cavalo'.
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